Fotografia aérea de drone mostra a Lagoa da Conceição com águas de tonalidade marrom-avermelhada e com grande banco de areia em frente à Avenida das Rendeiras. Resultado de rompimento de lagoa de tratamento de efluentes.

Na última semana, um evento climático com fortes chuvas ocorreu na região de Florianópolis, ocasionando o rompimento de uma lagoa de evapoinfiltração que recebia os efluentes tratados da concessionária de água e esgoto. O rompimento inundou casas e liberou uma grande quantidade do efluente para a Lagoa da Conceição, ponto turístico e de lazer da cidade. Diversas casas foram atingidas, onde felizmente não houve mortes.

O rompimento da lagoa de evapoinfiltração ocorreu diante de um evento chuvas extremas. Segundo o Ciram (Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrometeorologia de Santa Catarina), no mês de janeiro ocorreu o maior registro mensal da região de Florianópolis (recorde mensal absoluto), chegando ao total de 686 mm mensal.

Quer conferir os dados do nosso levantamento? Faça o download no final desta notícia.

 

O que é a lagoa de evapoinfiltração que se rompeu?

A lagoa de evapoinfiltração é a última etapa do tratamento de esgoto realizado na Estação de Tratamento de Esgotos – ETE da Lagoa da Conceição. O tratamento ocorre em nível secundário (Reator UASB + Valos de Oxidação) com cloração e com capacidade de atender até 30.000 habitantes da região da Bacia da Lagoa da Conceição. Esta lagoa de evapoinfiltração recebe o esgoto tratado da ETE com uma eficiência de remoção de carga orgânica da ordem de 90%, mas ainda com elevada concentração de nutrientes.

A lagoa de evapoinfiltração localizada nas dunas foi a solução encontrada para a disposição final dos efluentes tratados da ETE, visto à escassez de alternativas de Corpo Receptor. A concepção inicial era de uma disposição final com aspersores, porém devido à mudança de operação e perda da capacidade de infiltração do solo, ocorreu a formação de lagoas que vinham aumentando o volume ao longo dos anos.

Aqui cabe a reflexão sobre as possíveis alternativas de disposição de esgoto tratado na Ilha de Santa Catarina, que apresenta ampla expansão demográfica e ambientes sensíveis à degradação. Vale lembrar que mesmo as alternativas descentralizadas necessitam de um Corpo Receptor com uma certa capacidade de diluição, condição difícil de ocorrer tratando-se das dimensões da Ilha de Santa Catarina. Portanto, a infiltração no solo é uma das soluções possíveis, que pode operar com características de tratamento terciário, considerando dimensionamento e operação adequadas. Ainda, devemos ficar atentos às evidências das mudanças climáticas, onde observamos um aumento da frequência de eventos extremos em nossa região.

Qual é a situação da Lagoa da Conceição?

De forma a enriquecer o debate sobre a qualidade da Lagoa da Conceição, nossa equipe vistoriou o local no dia 31/01/2021, praticamente uma semana após a ocorrência do evento. Nesta ocasião foram realizadas algumas análises in situ com sonda multiparâmetro e CTD para aferição dos parâmetros físico-químicos de qualidade da água e perfil de temperatura e salinidade ao longo da coluna d’água.

As análises de água superficial apresentaram valores bastante altos de oxigênio dissolvido em superfície¹ (até 1,5m), pH levemente alcalino e salinidade pouco abaixo do normal (20 PSU). A visibilidade da água era maior que 1,5m com cor da água marrom/avermelhada em toda a lagoa, provavelmente advindos das drenagens de toda a Bacia da Lagoa da Conceição que apresentam altas concentrações de matéria orgânica dissolvida. Na região mais próxima do local de rompimento se encontravam alguns fragmentos vegetais. Não foi verificada a presença de peixes mortos.

Resultados das análises: Pontos coloridos indicam onde foram coletados os dados. Os gráficos mostram (da esq. para dir.) a variação de temperatura, salinidade e densidade ao longo da coluna d’água. As cores das linhas nos gráficos correspondem às cores dos pontos de coleta.

Através dos dados coletados com CTD foi possível observar grande estratificação da coluna d’água na região central da laguna, com termoclina e haloclina bem definidas (picnoclina). Isto indica que no fundo da laguna (a partir dos 2 m) há presença de água mais fria e com maior salinidade, enquanto na superfície a água é mais quente e salobra.

Este ambiente estratificado dificulta a circulação vertical e mistura das massas de água na lagoa, e juntamente com a degradação da matéria orgânica, podem resultar em condições de pouco ou nenhum oxigênio no fundo da lagoa, conforme diversos estudos já mostraram. Tal fenômeno se dá principalmente na região central da Lagoa da Conceição em virtude da proximidade com o Canal da Barra da Lagoa, onde a água do mar mais fria e salgada entra no ambiente lagunar e por apresentar maior densidade concentra-se na região do fundo da Lagoa. Além de estar associado a grande quantidade de chuvas que atingiram a região recentemente, favorecendo a estratificação pela acumulação de águas menos salinas em superfície.

E de agora em diante? O que fazer?

Devido às diversas incertezas e grande pressão popular acerca da qualidade da água da Lagoa da Conceição, verifica-se que é necessário a implementação de um monitoramento contínuo dos parâmetros físico-químicos e bióticos da Lagoa da Conceição que poderia estar associado a implementação de uma plataforma online, onde a população teria acesso  em tempo real aos dados de qualidade da água da laguna. Ainda, é enfatizado a necessidade de controle sobre a evolução do nível das lagoas de evapoinfiltração, de forma a dispor de maior segurança contra acidentes como o ocorrido, que por muito pouco não trouxeram consequências mais trágicas.

 

¹Nosso equipamento disponível no dia possibilitava a medição de oxigênio somente até 1,5 m de profundidade.

 

∴ Download dos dados coletados na Lagoa da Conceição.

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